domingo, 30 de dezembro de 2007

Guia de Baladas

Um educativo guia sobre as famigeradas "baladas". Clique na imagem para aumentar.


sábado, 29 de dezembro de 2007

BEIRUT

Eu queria postar mais algumas coisinhas antes do ano novo, mas não queria que fosse música, moda e adereços. Relutei bastante até que não teve jeito, nos últimos minutos do segundo tempo encontrei uma bandinha delicia demais para não registrar: os ciganos, hermanos, piratas franceses da "orquestra" Beirut. Para começar o vocalista, Zach Condon é umm... Que de acordo com o Felipe colaborador fantasma do Retro, Zach é o tipo de cara que se pareça com um monte de gente ao mesmo tempo (Wagner Moura.. Johnny Deep.. Voz de ...). Realmente ele e a voz segue um perfil do que faz sucesso por aí, senão fosse por alguns detalhes. Mesmo que eu tenha percebido que o timbre se pareça um pouco com o de Brandon Flowers do The Killers e até mesmo o jeito manhoso e arrastado do Amarante do Los Hermanos, eu consigo sentir uma certa identidade no conjunto todo, tornando-se uma das melhores coisas musicais de 2007, para mim. Além do mais, não dá para escapar das influências.






















O CD também, “The Flying Club Cup”, sem dúvida, dá muito prazer em ouvir. Surpreende com a riqueza de arranjos e instrumentos tão peculiares - Viola, acordeom, bandolim, trompetes, flugelhorn e orgão - . Ficando a frente dos meus xodozinhos, “The Shepherd's Dog” da banda Iron and Wine, “White Chalk”, da PJ Harvey, “Back to black”, da Amy Winehouse e o “In Rainbows” do Radiohead.

Eu sei que virão pedras, tomates e algumas hortaliças depois disso. Me apaixonei loucamente, viciei e já é a minha trilha sonora melancólica-divertida para o próximo ano.

Quem disse que dentro do drama não há diversão, tsé?

Ao mesmo tempo em que a maioria das melodias arrastadas de Zach constroem climas pra lá de melancólicos, o resto da banda trata de rebuscar algumas pinceladas em diversos ritmos e sentidos, dando assim, ao quadro, cores circenses, figurando costumes franceses em danças ciganas.


Tá aqui é só ouvir.


Beirut - "Nantes"

site com o video de cada música
cada foto uma música.
bem apaixonante.
http://flyingclubcup.com/spip.php?rubrique1

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

adereços musicais

Biografia sonora de Bob Dylan narrada por Patti Smith, de graça!

, melhor que isso só se fosse ela tentando falar em português! A gravação está em inglês. Mas é bastante clara, dá para entender. O 'documentário" tem duas horas, em vinte partes. Mas no site só foram postadas 10! http://blogs.legacyrecordings.com/podcast/category/bob-dylan/

O negócio é esperar.




O Bob tah com tudo. O filme sobre sua vida e a visitinha ao Brasil estão todas programadas para o começo do ano.


ainda de música....

Esses dias atrás caí de pára-quedas em um show de Carlos Careqa. Não é um nome muito conhecido no meio musica comercial, do qual ainda "Skanks" e "Jquests" da vida ainda tomam conta, na verdade ele vai na contramão de tudo isso. As suas peças de teatro, músicas o seu jeito de apresenta-se ao público, irreverentes, já conquistou o lado oposto há muito tempo. O cara está circulando com o espetáculo "Á espera de Tom", onde Careqa interpreta, em português, as músicas de Tom Waits. Careqa é extremamente engraçado e varia o timbre de sua voz em intervalos de tempo curtissímos: vai do grave para o fino, para o esgarniçado e volta para o grave (semelhante à voz de Tom). Além de possuir letras incríveis é um sujeito muito doce . Tive o prazer de conhecer e receber conselhos astrológicos e psicológicos dele. Faz algum tempo que fui ao seu show, queria ter postado antes. Hoje folhando a "Bravo!" de dezembro, deparo, justamente, com uma crítica do espetáculo. Eu não conhecia o Tom Waits, antes. Confesso que depois disso tudo não sei se gosto mais do Tom Waits interpretado por ele ou do verdadeiro!

http://www.myspace.com/carloscareqa - ouçam suas músicas



quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

"Lagartixando" para as tendências

Como discutir moda sem falar em tendências?
Já que falando a respeito de moda estarei, involuntariamente, discutindo tendências?
Sem contar que postando alguma coisa sobre moda consequentemente também estaria criando um sentido natural para tudo que eu for escrever!!
Depressão.
Será que também não passo de mais uma tendência?
”Estamos em tendências”.
Tudo que nos cerca nos engole.
E não é só a moda que se inclina, são todos os objetos que podem ser consumidos de alguma forma.

Este post é uma derivação do anterior. Acho que esse assunto ainda gera bastante discussão:

“Tendência”

No post anterior dizia que a moda só é irritante, e aparentemente fútil, por culpa das pessoas e suas “tendências”. Não dizia sobre as pessoas comuns - aquelas que vão a lojas de departamento (aliás que eu também vou) e compram a sua blusa cor de pêssego podre para ficar semelhantes a fulana de tal da revista. De toda maneira, sobre os fashionistas bitolados que vivem e discutem só sobre esse assunto. Convivem apenas com pessoas do meio e que transformam a moda numa coisa intocável, chata e o escambau. É esse padrão ilusoriamente dito como “despadronizado”, de estilo, que faz com que a gente venha acreditar ser o original, mas não é.

Em contrapartida a arte que está embutida no contexto e nos conceitos desaparece. E aquilo que é feito com seriedade torna-se, também, parte de uma grande massa ignorada e sob efeito de preconceito.

O meu maior exemplo foi quando entrevistei estudantes de moda. Quando eu perguntei sobre as inspirações, influencia em estilistas e suas preferências, todos sem exceção, me olharam estranho, como quem gostaria de ter dito: "puta merda, estudo tanto tempo, crio o meu formato para você me perguntar em que estilista me inspirei?". A partir desse momento vi que existem cérebros inteligentíssimos por trás de tecidos e cortes estruturados envoltos em modelos magérrimas, que constroem conceitos de acordo com estudos profundos em arquitetura, animais, histórias, obras de arte e teorias. Isso, definitivamente, é moda. Na sua mais pura essência. Ta certo que depois vira tendência e estraga tudo.

Recebi um comentário bastante sensato da Marti, que também tem um blog. Em suma, ela dizia que as pessoas precisam das tendência para se sentirem seguras.Concordo com ela, ainda sim, não apenas no discurso da moda, mas num modo geral. Alguns seres humanos precisam da aceitação. Os que não precisam criam para os que precisam consumirem. Simples.
Falando sobre moda ou não, entenda-se num plano aberto: todas as pessoas bitoladas que só discutem e vivem coisas específicas me deixam com preguiça. Seja ela quem for. E tenho dito.

Quer ver algo estúpido?

Quer ver algo estúpido?












































Elogiei a Vogue inglesa no ultimo post, mas não precisa ser assim sempre. Veja que a tendência do mundo, resumida em uma única peça da Dior, está na edição de dezembro na Vogue China e Japão
É por isso que a moda - como os filmes e as novelas - da arte passa a ser algo tão corriqueiro.
Acabou!
Igual a revistas semanais de fofocas e suas manchetes sobre o casamento. Ou até mesmo todas as revistas mensais (que nós bem conhecemos) dilacerando detalhes a partir de um suposto acidente do século. A tendência burra faz com que a gente se sinta satisfeitos por um tempo. Logo em seguida, nos enjoa, nos dá repugnância. Por último, dando continuidade ao processo cíclico, ela nos abocanha a cabeça, enquanto a gente engole o seu rabo.


pronto falei.

domingo, 16 de dezembro de 2007

arte e adereços.





EU VI...















Finalmente me rendo. O meu discurso sobre não estar tão ligada à moda falhou. Ultimamente tenho feito editoriais e acabo reparando em alguns que vejo por aí. As revistas de moda brasileiras estão deixando a desejar, ao contrário das européias que mensalmente nos surpreende. Todo mundo pode achar que é um assunto bastante fútil. Também concordo às vezes. Acho que a culpa não é necessariamente da moda, mas das pessoas que a torna algo irritante, com todas as suas manias de estarem ligadas à tendências. Mas esse é um post para uma outra ocasião, ou não. Detesto ler sobre essas coisas. Quero mostrar hoje as coisas interessantes que vi esta semana. Por exemplo a capa da Vogue Itália, com o editorial chamado "Vogue Paterns". A delicinha do lado de dentro é surpreendente: 20 páginas em imagens baseadas em conceitos de arte, e moda kitsch.











Bem modesta essa produção. Queria alguns milhões para fazer o mesmo.
















loja





Parece as Havaianas, mas não são. Depois de revirar o site das Havaianas junto com o Gustavo, e ver 45454 milhões de Havaianas diferentes e não achar a que eu queria, trombei em um blog "amigo" e encontrei o site oficial. A marca é Dupé. Nada original, convenhamos. Mas existe uma porção de sandalinhas como estas. Linda, ? Tratei de buscar o telefone para mais informações. Vou ver se mando alguém trazer para mim.










Número 0800 819133




emendando...
Falando em utensílios kitsh, assisti a um filme hoje, "Tudo sobre minha mãe", do Almodóvar. Não é um filme novíssimo, mas combina com os adereços. Além de não ser novidade a história não é uma das mais emocionantes. Eu diria que é bastante morna. Tudo é muito amarradinho, as cores características ( que apesar de tudo eu amo), os dramas folhetinescos. Me desculpem aqueles que amam o Amodóvar, mas quase morri de tédio e achei que estava vendo alguma novela global. Porém com um detalhe, estava repleto de Reginas Duarte! Com tanto chororô. Confesso que o filme não tem erros grotescos. é um filme premiado. Não é ruim. Não tem nada. Acho que é justamente por isso! Não dá margem para questionamentos. Ou engasgar em um "Mah, mah.. mas..". Certo demais. Começo, meio e fim, definidinhos. O que eu posso esperar mais de um filme? Que faça, pelo menos, eu dizer: " Puxa eu nunca vi isso antes em algum lugar".

Pronto falei.





segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Móveis Coloniais de Acaju

foto: Roberto Ortega

Irreverência e diversão, esse é o perfil da banda brasiliense que desestrutura qualquer pessoa, até aquelas que gostam do que vai contra o que a banda faz.
Mas, a final, qual é o som que eles fazem?

Dizem por aí - tomei a liberdade também de saber por eles - que o som é uma “feijoada búlgara”, por conta da diversidade de elementos, pessoas, ritmos e tudo que faz o público, a banda e o vocalista se mexer. No total são 10 músicos em cima do palco, produzindo gestos e coreografias.

Na verdade, o show desse pessoal é uma verdadeira festa grega, misturando aspectos judaicos, noitadas boemias norte-americanas, e vocês também podem jurar tem visto alguma coisa parecida lá nos confins do nordeste brasileiro. Sem contar que ainda existe o ska jamaicano, extremamente irradiado nas bandas de pop rock nacional.

Em contrapartida, a banda possui quarteto de metais – trombone, sax Tenor, sax Barítono e flauta - inclinado aos grupos de jazz norte-americanos, porém, “trajando uma roupagem” totalmente nova, comparados a outras bandas do gênero. Quem acompanha 30 minutos de show confirma que não parece com nada, não é convencional, não é rock, não é lúdico, mas é extremamente divertido.

Quem apenas ouve o CD desse grupo estará fadado a limitações e conceitos bem vazios.
Neste meio tempo as letras bem humoradas, sátiras, dificilmente românticas, podem ser um aperitivo bastante instigante, ávido por um prato principal.


Eu tinha uma entrevista para postar aqui hoje. A entrevista que deveria, também, ser publicada na revista que eu trabalho, no entanto por conta da sala de imprensa ter sido atrás do palco e por eu ter superestimado o meu gravador, o que eu consegui foram ruídos estranhos e o som do LUDOV no fundo.

Mas deixo apenas uns comentariozinhos aqui sobre o Móveis para quem gosta de música brasileira - apesar de não parecer.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

folhagem aos três fôlegos.



Eu gosto deste texto do Mário Bortolotto - dramaturgo, escritor, diretor, ator, poeta e o escalbau.
Ainda não conversei com ele. Encontei o cara num festival literário nesse final de semana, acabei trocando ums três palavras com com um grande amigo dele, o Carlos Careqa, mas to com uma certa resistência em falar com o Mário. Eu colocaria "me gustán las muchachas putanas", que também é muito bom e engraçado, porém o que tem no youtube não é tão incrível quanto o que eu vi no sábado ao vivo, e chorei de rir.

Fiquem com "Cabaré Subterrâneo". É ótimo também, com blues ao fundo... cenário boêmio... uma "despoesia" suja, urbana, deliciosa e bem caracteristica... Uma reflexão melancólica sobre solidão, a vida...



domingo, 18 de novembro de 2007

Da finitude.

Giuditta con la sua ancella (1613-14), de Artemisia Gentileschi.


Há uma dorzinha que se sente bem no meio do coração quando se leva um fora, como uma pequena bolha que entope um átrio ou um ventrículo; não há na cultura, laica ou secular, dos liberais aos monges tibetanos, o conhecimento preciso de como extirpar essa dorzinha. Uns dizem que só o tempo cura, outros que só um novo amor, já ouvi dizer que a dor é um processo cósmico e tudo faz parte do mesmo uno nos levando a acreditar que dor e alívio são todos componentes da mesma sensação ou seja não existe dor, e por aí vai. Então, se você vai se arriscar – porque ela é linda, ela é demais – é aconselhável antes um check-up, pois tudo que dói combina com morte, e depois de morto, já sabe, não tem volta. Pros incréus, dois exemplos significativos:


Caso nº 1: a escada.

Jorge foi naquela festa já sabendo que ela estaria lá. O ambiente prometia, era uma dessas festas onde todo mundo pega todo mundo e o conceito de ficar atinge mares nunca dantes navegados. Nesse caso, não importa o preço, não importa que a long-neck custe cinco pila, porque sempre se sai com um souvenir. Mas Jorge não é o que se chama de colecionador – Don Juan passa longe – logo comprou uma bebidinha antes pra esquentar sem chegar trocando as pernas. As músicas tocaram, as luzes piscaram, e lá pelas duas da manhã ele encontrou seu benzinho recostado no corrimão da escada. Troca de olhares, tudo com muito amor, estrelas piscando no céu lá fora, sequer trocaram palavras. Toda longa caminhada começa com um passo a frente, e depois desse passo Jorge se viu pendurado no pescoço de sua amada. Dois beijos depois, ainda com aquele sorriso bobo colado nos lábios, ele ouve a primeira manifestação da garota:

“Vou descer pra procurar minha amiga.”

“Vou contigo.”

“Deixa que eu procuro sozinha.” – e se desvencilhando, desce sem o rapaz.

Daí, já viu, aquela pontada começou a crescer dentro do coraçãozinho de Jorge, a ponto de ele trocar a esquerda pela direita e cucar o terceiro, o segundo e o primeiro degrau da escada, em seqüência. Resultado: fratura da terceira vértebra, traumatismo craniano, luxação do pulso direito e um canino a menos.


Caso nº 2: nosso apartamento.

Tenho pouco medo de afirmar que, de boa fé, só se começa um relacionamento tendo em vista sua permanência e estabilidade. Tiago e Caio namoraram por seis meses até decidirem morar juntos, e tendo decidido, assim foi por uns bons três anos. Mas, apesar da boa fé e de se darem bem, nem toda permanência tende ao infinito. Desta feita, Caio escolheu um nublado dia de inverno para “conversar” com Tiago, porque sempre se escolhem dias nublados para essas conversas por criarem um certo mood, como nos filmes. E como na ficção, Caio já havia preparado suas malas, reservado um hotel e, feito grande arquiteto de seu destino, esperava sentado do outro lado da mesa. O então pequeno e franzino Tiago varou porta a dentro já pressentindo sua desgraça e carregando no olhar tanta aflição a ponto de quase fazer Caio desistir de seu intento. Porém, decidido que estava, o algoz largou sua caneca de chá de marcela com mel e hortelã, para em seguida proferir as seguintes palavras:

“Tiago, eu vou ser direto porque acho que é a maneira mais justa de se fazer isso. A verdade é que não quero mais morar contigo, alguma coisa se perdeu e não há mais motivo para continuarmos juntos. É bastante frustrante, eu sei, e por algum tempo acredito que não devíamos sequer nos falar, mas... – e chorou – eu... – soluçou – bem... foi muito bom te conhecer, é uma pena que já não seja... eu já não possa... adeus.”

Levantou-se e foi embora. Tiago ainda gaguejava alguns sons esquisitos, balançava a cabeça e dava passos sem destino pela casa quando a porta se fechou. A dor aumentava enquanto ele chorava em seu leito conjugal, quando, no fim de suas forças, espumou e teve um derrame. Encontraram seu corpo gelado ainda na mesma posição fetal três dias depois, fedendo.

domingo, 21 de outubro de 2007

Por trás de uma coletiva de imprensa


Estou ajudando a produzir e apresentar um programa na internê . Eu e um grupo de amigos (inclusive todos homens,sou a única mulher). Teremos um quadro que vai se chamar "por de trás de". Desta vez, na verdade a primeira vez, foi escolhido, por uma eventual circunstancia,
senão por causa da circunstância, uma coletiva. Mas, o que seria uma coletiva, passou a ser uma entrevista. Ontem aconteceu um show, aqui na minha cidade, da super roqueira TEEN, de 30 anos de idade e com maquiagem de garota de 13 (e uma mentalidade idem, ela que disse isso) Pitty. Não sou fã dessa cantora, embora saiba algumas músicas, pois já fui adolescente um dia e ela já era famosa naquela época (se ainda não sou) e enfim. Decidimos da noite para o dia que faríamos uma entrevista com a mulher. Estávamos todos receosos, pois o nosso programa é diferente, com muita coisa zoada e ninguém do grupo gosta muito dela, apesar de dividirmos uma mesma opinião justa: ela arrasa em cima do palco e não tem como negar. A tarde precisávamos gravar takes, vinhetas e chamadas para o programa. Mas, só aqui entre nós, foi absurdamente mais divertido do que propriamente a entrevista.


13:00
Ligamos atrás de informações, disseram que às 14:00h a Pitty faria uma passagem de som. Então lá fui eu remarcar com o pessoal, porque tava tudo certo para a reunião no centro. Não deu certo, ela não faria mais passagem de som. Desmarquei tudo de novo. Aproveitamos para desenvolver algumas perguntas, foram 10 é bom deixar isso claro. Nada convencional, nada objetivo e nada que ela conseguiria responder rapidamente. Discutimos as características do programa e quem mais entrevistaríamos. Fomos a tarde no local do show. Já havia uma grande concentração de pessoas. Conversamos com um pessoal, os músicos das bandas que abririam o show.

17:00
Nada de Pitty, nada de informação. Ninguém sabia que tipo de entrevista seria (coletiva ou não).
Surgiu um burburinho que poderíamos conversar com ela e não seria uma coletiva necessáriamente. Depois disseram que seria 10 minutos de coletiva no máximo. Eu confesso, fiquei bastante mal humorada. Tive um ataque de estrelismo de categoria 2. Eu queria comer, o Lucas queria uma cerveja e um dos câmeras foi embora. Ótimo. Tínhamos quatro pessoas cansadas e entediadas para fazer um quadro.

18:00/19/

As pessoas foram chegando (jornalistas e afins). O que foi incrível. Começaram as picuínhas, competição para quem faria as perguntas primeiro, alguns comentários maldosos e gracinhas convencionais. Eis que chega a nossa querida Pitty no meio de 48 seguranças, músicos, todos de preto, o que me deu medo. Ela no meio com as suas mechas (aquelas que eu usava quando tinha 15 anos) sua meia arrastão e o sua altura toda: 1,45 (isso foi uma surpresa). Esperamos mais meia hora.

20:35

A produtora desponta do corredor e diz: Tá na hora. Bom, não foi dessa maneira tão épica. O nosso companheiro de trabalho, careca, foi o primeiro, talvez achando que fosse apanhar o primeiro bom humor da nossa roqueira. O único. Se é que ele pegou. Fiquei lá bem quietinha no final da fila, para mim não fazia diferença mesmo a Pitty seria apenas um detalhe no quadro, no qual o nosso sofrimento seria o principal.

21:00
“Mayhara pode entrar”. E daí foi lá, o câmera um, dois, fotógrafa e eu. Cheguei lá, Pitty estava em uma poltrona toda arrumatinha, de lado, pernas cruzadas, montada: 45cm de espessura de pura massa corrida e suas pintinhas característica nos dois olhos. Até aí tudo bem. Expliquei que faríamos perguntas esquisitas e se ela não se importava. Ela respondeu enfática “Graças a Deus”. Lucas ligou a câmera e lá fui eu. Ah sim, das 10 perguntas apenas 3. “Apenas 3 perguntas heim, mayhara, por favor!” Tá, Tá, tudo bem.
Ela, fria, estática, parecia uma estátua de pedra, contrariando aquele discurso todo que ela é feita de carne e osso e blá blá. Fiquei com vergonha de mim, confesso. Lembrei da frase da jornalista Nina Lemos que dizia: “Jornalista é cafona” . Logo consegui me enxergar naquela situação.
"Estamos aqui com a cantora (será que eu tigo teen) Pitty, depois de horas E HORAS de espera".


21:20
Pedimos que ela fizesse uma gracinha lá, na chamada do nosso programa. Parece que ela gostou e fez caras e bocas. Eh, ela foi até simpática. No final agradeci e ela retribuiu de uma forma esfuziante, “Boa sorte viuuu”.O que me animou, e o que eu não entendi muito bem.

O jornalista de um programa local, do SBT , disse em uma entrevista para nós: "A Paula Toller é engraçada, antes de ligarmos a câmera ela estava de super mal humor, foi arrogante. Depois, que começamos a rodar a entrevista, ela mudou, tornou-se o ser humano mais simpático!”.

Bom, não sei se eu fico feliz pela Pitty ter feito ao contrário.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Sobre as patologias

Perder a virgindade é sempre difícil, ainda mais quando não se conhece direito o(a) parceiro(a); apesar disso, meu temperamento temerário me impele as escolhas mais complicadas, quase sempre com resultados desastrosos. Espero que esse não seja o caso desse breve comentário.

Não li a Veja, outros blogs de cinema, no máximo a crítica da Cinética. Muita coisa chegou aos meus ouvidos por conversas - principalmente sobre a tal publicação - e outras simplesmente através de uma pesquisa superficial que eu fiz pela internet por causa do frisson das últimas semanas. Em geral, muita bobagem, mas que me fez perguntar: por que um cara como o Ruy Gardnier avalia com três estrelas Tropa de Elite? Fui assistir e gostei.

Reduzí-lo a propaganda do BOPE ou argumentar que ele aponta o usuário como sócio do tráfico é, pra ser gentil, inocência; um lapso de conceito básico: o discurso do personagem principal não é, necessariamente, o discurso do filme. Alguém já viu propaganda do exército mostrar cenas de combate ou tortura? Como o usuário pode ser acusado de sócio do tráfico se a todo momento ele está acuado, pressionado tanto pela polícia como pelos traficantes? Não, as primeiras impressões não devem ser finais, ainda mais quando se trata de temas conturbados.

E principalmente, no que tange o personagem principal, o Nascimento, nome ironicamente colocado ao lado de uma caveira. Pra começar, a brutalidade característica do soldado não impede ele de se sensibilizar com umas coisas que, na realidade do filme, não deviam passar de bobagem, numa ligação com "Nascido pra Matar", do Kubrick, que pra mim é quase direta. Lá, o personagem do repórter, é ao mesmo tempo consciente dos absurdos da guerra e agente deles, criando uma ambigüidade sufocante; aqui, a discrepância entre o senso torto de justiça de Nascimento e o prazer violento com que ele aplica essa justiça à la grupo de extermínio é aviltante. Ele faz umas coisas que me deixam puto e ao mesmo tempo não posso deixar de caminhar ao lado dele através desse labirinto de paradoxos, imergindo nas vielas do morro carioca, AR-15 na mão, cada vez mais dentro de um lodaçal que só piora, olhos perplexos de frente pro círculo vicioso de corrupção e cinismo que se tornou a favela.

domingo, 14 de outubro de 2007

Eu sou o palhaço...



Sempre detestei palhaços. Trauma de infância. E descobri isso meio sem querer, comentando uma vez com minha mãe que sempre ficava nervoso ao ver um deles. Qual foi minha surpresa quando ela me disse que, uma vez num circo, devia ter 4 ou 5 anos, para minha infelicidade, um palhaço me pegou no colo. O escândalo que eu fiz foi tão grande que abreviou o espetáculo e ela foi obrigada a me levar embora. Até hoje fico meio bolado com palhaços, principalmente um que sempre na época de natal fica ali pelas bandas da pelinca, a rua mais "famosa" da minha Dogville, animando, ou assustando (no meu caso) as pessoas que por ali transitam. Sinistro. Tem a cara coberta por maquiagem preta e o cabelo azul! ECOW!

Desnecessário dizer que essa figura aí de cima marcou minha infância. E da pior maneira possível. Era só eu começar a ouvir a musiquinha "Eu sou o Palhaço, meu nome é Bozo, trazendo alegria pra vc e o vovô..." pra entrar em pânico. Imaginem o dilema, todos meus amigos na época eram fãs do palhaço, o que quase que me obrigava a gostar. Mas infeliz ou felizmente, nunca me deixei levar.
Agora me digam. Como podia gostar de um palhaço gringo, com as cores da bandeira americana, atendendo um telefone sentado de pernas cruzadas, balançando a perna com aquele sapato enoooormeeeee convidando os "amiguinhos" a participarem de várias brincadeiras, a bozomemória, a do baldinho e a ridícula corridinha de cavalos.
Interpretado pelo pseudo-galã Luis Ricardo, que depois se tornou apresentador de Tele-sena, o Bozo tinha como parceira a horrenda Vovó Mafalda, com seus slogans recheados de "Dindinho e Dindinha" (sic). E tinha também o Papai Papudo, uma espécie de mini-espantalho da terceira idade.

O pior foi descobrir que, depois do Luís Ricardo, o Bozo foi interpretado pelo Arlindo Barreto que confessou numa entrevista à revista playboy que apresentava o programa completamente chapado, alucinado de tudo quanto é droga, animando a criançada com a cabeça fritando. Depos dessa experiência trash, Arlindo virou pastor e afirma ter encontrado o caminho na luz de Jesus. Sobriedade ou será que desta vez ele embarcou numa bad trip sem volta? É... a minha teoria da conspiração estava certa... além das bitocas, quem diria que o palhaço curtia também outras coisas em seu nariz. E pensar que esse cheirador influenciou toda uma geração.

Mas o melhor ainda estava por vir, comovido com o meu drama, o meu tio, que também odiava o Bozo, teve a brilhante idéia de ligar para o programa, direto do escritório de papai e ter uma conversinha ao vivo com ele. O diálogo eu reproduzo aqui:

Bozo: Alô amiguinho, como vai?
Tio: muito bem palhacinho!
Bozo: qual brincadeirinha vc quer participar?
Tio: eu... eu quero que vc vá tomar no cú!!!
Bozo(o idiota ainda veio com essa): o q? Comer tomate cru???
Tio: não... é tomar no cú mesmo!!!

Nesse momento o programa sai imediatamente do ar... papai ao lado, passando mal de rir e eu, com meus 8 ou 9 anos, me sentindo completamente vingado. Grande tio Ivan... essa história foi o assunto de semanas no país. O Bozo? Nunca mais atendeu nenhuma ligação ao vivo... trauma de adulto!!!


quinta-feira, 11 de outubro de 2007

A melhor foto do ano


Nosso guia numa pose FHC.




















Aqui se faz, aqui se paga.

Hoje dei aula. Duas. Uma para os meus alunos carentes e outra para um professor, colega meu. A história é real. O caso foi grave. Mais um sinal da pandemia planetária. Foi durante o intervalo, durante o recreio dos alunos, na sala dos professores. Eu não tinha mais aulas depois. Ele veio até mim e disse:

- Estou pegando livros na biblioteca da escola. O diretor autorizou. Tem muita coisa boa aqui.

Fiquei duplamente feliz. Sempre é bom que os professores leiam e se instruam. É um alívio saber que a biblioteca tem livros bons. Por um acaso raro, eu estava de bom humor. Assenti sorrindo. Pecado incomum. Ele continuou. Contou do autor. Fiquei arrepiado. (Não vou contar quem era. Também não digo o nome do colega. Não quero arranjar confusão. Sou boa gente, cabra manso. Uma boiada para não entrar em briga e um boi para sair. Ele é meu colega...) Conheço o autor, não conhecia o colega. Os dois são resultado da preguiça. Um viu, não entendeu e resolveu escrever. O outro não viu, quis ler e não entendeu. Os dois não sabem argumentar. O meu colega admitiu:

- Não sou bom nessas coisas.

O outro, o autor, não admite. Escreve sem parar e mal sabe ler. Viva a democracia. (É de coração.) Meu colega, satisfeito, quis me explicar. Coitado. É bem intencionado. Não tem nada na cabeça. Resolvi ensinar, mesmo no recreio. O trabalho do bom professor não tem fim nem descanso. Além disso, é mal remunerado. Nesse caso, voluntário. Demonstrei passo a passo por que o autor não tem razão. Fui gentil e carismático. Já falei: é um pecado raro. Aqui se faz, aqui se paga. Depois da minha explicação, ouvi uma longa digressão sobre o tudo, a inclusão e o nada. Longa, demasiado longa. No final, para a minha surpresa, outra confissão:

- Não posso perder a oportunidade. Esse exemplar está praticamente em estado de novo. Não dá pra deixar de ler um livro teórico pequeno como esse.


O caso era simples: escolheu o livro pelo tamanho.

sábado, 6 de outubro de 2007

ensaio

Ela não sabe o que dizer de sua própria pretensão de desvendar e transmitir a sua eloqüência só pelo jeito olhar. Ela não sabe ser outra. Musa, dilacerada, coração vertiginoso, derradeiro, não se aventura sem antes calcular sua passagem sem medir milimetricamente a sua conduta, imoral. O seu passo é curto, rápido e certeiro. Nada a impede de desvendar quaisquer absurdos do seu meio social fútil. A sua delicadeza visceral, atormenta, permite verter, judiciosamente, um fio de cicuta em suas palavras. A sua sombra transcorre, escorre pelos cômodos, invade permanece, gruda, corroí. Por onde ela passa propaga escuridão, como tal a frieza do desapego de suas ações. A mulher que não está, necessariamente, em corpo, físico, presença em perfume, carne ou seu Chanel alinhado, mas na hostilidade da sugestão, no soar das vogais e consoantes do seu nome que provoca, destrói...
Incerta textura da paisagem: a musa jogada no tapete de pele, em sua sala principal... uma piteira ao lado e dezenas de devaneios espalhados ao seu redor. A princesa do flerte. A segurança inquestionável em seus gesto intimidava os seres inanimados à os que de frente estruturados não se cabiam de aversão. Balbuciava seus sonetos de Elegia a frente de um piano, ela era só, contra todos. Ela, no seu quarto, no seu palco, uma cena de auto flagelo na frente do espelho que a condena, ela repele. O espelho dirige a imagem de uma dama e aprisiona alguma desconhecida. Será uma vilã, será uma vítima...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A vigança

"A gente vai cutucando até o fígado cair". Esse foi o comentário carismático do bisbo Edir Macedo, no lançamento da nova emissora da Record News, referindo-se a uma certa estratégia de quebra de monopólio de comunicação da Globo. Para quem não se lembra o bispo foi alvo acusação de charlatanismo e curandeirismo, em 92. Tudo isso resultou numa série simpática da rede globo, "Decadência", em 95, sobre um bispo evangélico ganancioso e etc.
A festa estava bonita, com o Lula, Serra e o Macedão apertando o botão vermelho. Pedi para um o Gustavo fazer uma charge.. isso definitivamente não poderia passar em branco.


Mas agora eu não sei o que ficou mais engraçado: se é a alfinetada, a notícia que o bispo vai lançar a sua biografia em todas as capitais do BRASIL ou se é a charge com o típico humor que só o nosso rapaz tem





*O livro vai se chamar "O Bispo: A História Revelada de Edir Macedo" Com uma tiragem inicial de 700 mil cópias.

*Eu e o Gustavo vamos comprar.

*Isso vai ser melhor que final de novela mexicana comendo uma pizza de calabresa.

*resposta da globo para comentário: "calúnias requentadas".


que classe. que divertido.
como se eu me importasse muito.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Portable Toilet

A humanidade com certeza evoluiu bastante.
Muitos avanços tecnológicos e investimentos em pesquisas.
Sim senhor. Muita evolução.
Basta observar essa beleza de invenção: a privada portátil.







Imagine você na seguinte situação: festinha escrota, ambiente escroto. Pessoas bêbadas e chatas por toda a parte. Você ali de saco cheio, querendo ir embora e com vontade de mandar a maioria dos seres humanos ali presentes irem tomar no cu. Mas não pode ir, pois está de carona e a festa é no cu do mundo.
As garotas com quem você flertou lhe esnobaram. O DJ só toca músicas merdas. Mas merdas mesmo. Daquelas que não conseguem nem entrar num cd vagabundo da Som Livre. Os imbecis estão falando aquelas imbecilidades que lhes são de costume. Carros, cerveja e mulher. Futebol de vez em quando. Puta merda. Que festa escrota! Vontade de cagar. Você vai ao banheiro e percebe que a parte mais limpa do mesmo é o teto. Fezes, vômitos e outros fluídos corporais espalhados por toda a parte. Puta que pariu. Essa foi a gota d'água.
Então você tem um estalo. Abre a sua mochila e tira sua belíssima privada portátil e a monta bem no meio do salão.

"Seus filhos de prostitutas! Essa aqui é para vocês!"

O resto vocês podem imaginar.

http://www.composters.com/chipper-shredder/nature-plus-portable-toilet_144_13.php

terça-feira, 25 de setembro de 2007

O engolidor de fogo

Peço licença a minha companheira de trabalho, a brilhante jornalista Sílvia Salgado, para postar um artigo seu, brilhante como vários que ela tem escrito, e que com certeza brevemente irão estampar a capa de algum livro.

Sílvia Salgado

O engolidor de fogo

Marido rico, dois filhos adolescentes,cachorro chic, apartamento de andar inteiro, casa na praia, três cartões de crédito, closet imenso de roupa, outro só de sapatos. Pelas suas contas deveria ter uns 250 pares; não usava nem um terço, é verdade, mas tinha compulsão por um salto, e daí? Gostava, podia e pronto. Não era feliz, nem infeliz e procurava não pensar sobre essa coisa de felicidade. Sua mãe desde pequena ensinou-lhe que a vida é pra ser vivida, e não fuxicada. "Se procurar, você encontra", era a frase que mais ouvia desde que se entendeu como gente. O maridão saía com outras mulheres, mas se no começo doía, o tempo fez com que se acostumasse. Teve dois relacionamentos fora do casamento com amigos em comum. Um troca-troca meio que natural no mundo em que transitava. Mas foram coisas rápidas que no fundo trouxeram mais frustração do que prazer. Decididamente não nascera para trair, embora todos à sua volta o fizesse.

Mas, numa hora qualquer do dia, no auge de uma festa, no meio de um filme ou passando baton, em frente ao espelho, Beto vinha-lhe à cabeça. Ele fora o primeiro namorado, o autor do primeiro beijo, do primeiro amasso, do primeiro pecado. Era lindo, moreno, livre das convenções da época, sonhador e aventureiro. Namoraram por três anos, fizeram planos, escolheram nomes dos filhos que teriam, projetaram morar num sítio, plantar e colher, entre discos, livros e o canto dos pássaros. Numa noite ele chegou dizendo que o pai havia sido transferido para Curitiba, implantar uma fábrica lá. Estava de partida, mas voltaria para buscá-la. No começo muitas cartas, telefonemas mas depois Beto sumiu no mundo. Cinco anos depois soube que os pais dele haviam morrido e ele, rumo ignorado



Já casada, com dois filhos, um dia acompanhou o marido a um congresso em Curitiba. Lá empreendeu uma busca pelo paradeiro do homem amado. Procurou no catálogo, perguntou nas lojas, nos bares, assim como quem não quer nada. Afinal, o pai dele era um engenheiro renomado. Quem sabe alguém não teria uma pista? Nada. Voltou decepcionada e tocou a vida para frente, mais sempre pensava, "E Beto"? Em noite escura como breu, o céu pontuado de estrelas, ela debruçava-se na janela e fazia a pergunta, olhando para o cosmo: "onde andará Beto"? Tinha época em que fantasiava que ia ligar a televisão e vê-lo tocando guitarra ou violão – ele era bom nos dois instrumentos. Em outra ocasião achava que ia abrir o jornal e ver uma crítica de um livro de Roberto Bernardo. Na juventude ele fazia poesia, contos e crônicas e sonhava em ser escritor. Numa noite, ela voltando do shopping, parou num sinal enquanto um homem e um garoto engoliam fogo. A cena não era comum na cidade; tinha visto malabares e engolidores de fogo só no Rio e em São Paulo. Ficou prestando atenção e de repente, quando o cara apagou a tocha com a boca, ela fixou o olhar e apesar dos estragos do tempo e da vida, não teve dúvidas: era Beto. Ele se dirigiu ao carro ao lado para apanhar moedas e o menino veio em sua direção. Ela ficou paralisada, muda, o sinal abriu e uma onda de estridentes buzinas fez com que engatasse a primeira no carro e saísse dali.

Parou lá na frente, coração disparado, boca seca e nenhuma dúvida: era Beto. Podia viver mil anos que o reconheceria: aquele olhar, o queixo quadrado, o cabelo comprido, agora grisalho, o andar desengonçado e charmoso. Fez o contorno, voltou e lá estava o homem e o menino exercendo o ofício dos desvalidos pela sorte: tentar sensibilizar as pessoas nos sinais de trânsito, numa noite fria, de vento sul. Ela estacionou na esquina e quando o sinal abriu, encontrou-o na calçada. Os dois se olharam. "Beto!", disse com voz trêmula. Ele ficou em silêncio por alguns segundos e respondeu com um "olá" constrangido e emocionado. Ficaram se olhando, se medindo, ela avaliando o que havia restado daquele homem que guardara por mais de 20 anos. Ele estava envelhecido para idade, maltratado e faltava-lhe um dente. Tentou puxar conversa. Ele foi curto e grosso: "Vá embora, menina. Eu tenho que voltar ao trabalho". Ela ainda tentou falar da sua busca, dos anos que aguardara aquele encontro quando o sinal fechou e ele voltou com os seus apetrechos para o meio da rua. No percurso para a casa as lágrimas caíram fartas, tão fartas que molharam a blusa, escorreram pelo decote e fizeram cócegas entre os seios. Entrou em casa com a cara inchada, trancou-se no banheiro, encheu a banheira de água quente e ficou por lá com olhar perdido, sensação de vazio no peito, lágrimas fazendo buraquinhos na espuma branca. Mais tarde, encolhida na cama, abraçou-se ao marido, chorando. Ele quis saber, insistiu de maneira carinhosa, deu-lhe um calmante, insistiu outra vez para que ela falasse. "Não posso", choramingou. "Como – pensou – eu vou dizer que hoje perdi para sempre o grande amor da minha vida"? E, em silêncio, sentiu o tamanho do buraco que aquele encontro abrira em sua alma...

Pandemia

O caso é grave, doutor. O prognóstico não é bom. O vírus é mutante e letal. A crise atravessou o Atlântico. Não aquela de que falava nosso desfavorecido molusco. Aquela crise, como sabemos, foi morta a canetaços por ordem do eneadáctilo caeteense. O batráquio barbudo não perderia a oportunidade de tomar para si o mérito da salvação. Falando na Zoropa e não satisfeito com a exibição de conhecimento geográfico, que seguramente não adquiriu na escola, demonstrou entusiasmo nos comentários sobre economia. Falo de outra crise. Não sei bem que rumo tomou, mas o fato é que chegou a Nova Iorque.

Mahmoud Ahmadinejad, o número dois no governo iraniano, foi participar da Assembléia Geral da ONU. Quis aproveitar para visitar o Ground Zero, onde ficavam as torres gêmeas, mas não foi possível, apesar de o local estar dentro do raio de 25 milhas de distância em que os diplomatas e representantes internacionais têm assegurado direito de transitar. Seria curiosidade de turista? Muita propaganda foi feita sobre os memoriais ali construídos. Eu também gostaria de conhecer o lugar. Ou será que é orgulho de artista? Infelizmente a polícia de Nova Iorque não permitiu a visita. Daria muito trabalho. É um lugar aberto. Imaginem o tumulto... muita confusão. Melhor evitar.

Em uma fantástica demonstração de liberdade de expressão, Ahmadinejad foi convidado a falar na Universidade Columbia, criando grande alvoroço. Dizem por lá que os ingressos para assisti-lo esgotaram mais rápido que os ingressos para show do Bruce Springsteen. A universidade estava prestes a realizar um experimento antropológico. Nem a mulher barbada e o homem que engolia vespas conseguiram atrair tanta atenção. As filas só não eram maiores que as do zoológico. Alguns setores da população ganharam as ruas em protesto. Carregavam placas e faixas ao redor do campus enxotando o inimigo. O próprio presidente da Universidade Columbia, Lee C. Bollinger, abriu os trabalhos com um ataque verbal forte, descortês e nada sutil ao presidente iraniano. Não era preciso. Era uma excelente oportunidade para conhecer melhor o líder persa, uma oportunidade para mostrar-lhe o que o Ocidente tem a oferecer. Que orgulho! Uma civilização que permite ao suposto inimigo exibir suas idéias contra a mesma civilização que o recebe! Fico satisfeito ao ver um crítico do Ocidente participando de nossos rituais democráticos. Fico feliz ao ver que ainda existem universidades autônomas, livres de pressões governistas, universidades que privilegiam o conhecimento e não temem os métodos democráticos. Quem diria que um eminente líder de um país totalitário participaria de uma Assembléia Geral e de um debate universitário! Um repórter não desfruta dessas regalias no Irã. Um iraniano não desfruta dessas regalias no Irã. Um iraniano no Irã pode falar livremente sobre todos os assuntos, menos o que é proibido. Excetuando algumas proibições, são livres! Um lugar maravilhoso! Mulheres livres para exercerem seus deveres e obedecerem as leis religiosas! Homens livres para trabalharem corretamente pela grandeza da nação! Jovens livres para estudarem o que quiserem entre as opções oferecidas pelo governo e sobre a grandeza iraniana.

Ahmadinejad é louco, mas não é burro. Moderou seu discurso. Não respondeu as provocantes perguntas do Sr. Bollinger da mesma forma que faria em casa. Esquivou-se dos ataques com habilidade, coisa que já não se vê mais por aqui, desconversou, evitou vaias e ainda falou sobre o amor a todos os povos.

A Universidade Columbia perdeu uma excelente oportunidade de aplicar um antígeno contra pandêmico patógeno da burrice, a mais mortífera e contagiosa inópia humana. Quantos alunos necessitados estão reunidos em Nova Iorque! Aulas de história, sociologia, política, direito internacional, comércio internacional, economia e tudo aquilo que falta naquelas cacholinhas ocas. No currículo também constaria geografia, conhecimento de extrema necessidade aos campeões das gafes. Já imagino o professor apontando no globo terrestre e dizendo: “Austrália e Áustria são dois lugares diferentes. Um fica na Oceania, perto da Indonésia. O outro, lá na Europa, perto da Alemanha. O oceano Atlântico...”

domingo, 23 de setembro de 2007

uma brecha...

Há menos de um ano, o coordenador do curso de Comunicação Social trouxe na sala de aula algumas revistas desconhecidas para nós, aspirantes a jornalistas metidos a achar que revista mesmo são apenas aquelas triviais da editora Abril, globo... Ele mostrou um universo, considerável, do jornalismo “anônimo” para nós, entre elas as antiguíssimas O Cruzeiro, Realidade, outras não tão velhas assim com Caros Amigos, e a revista em que servirá de tema para o post de hoje, a Piauí.




Em suma, sem critério algum, todas dividiam o mesmo visual; estranhas para qualquer ser humano acostumado com o formato Abril. O tamanho assusta. A diagramação e a textura do papel lembram jornais, o conteúdo tem uma linguagem esquisita, dificilmente são bem recebidas logo de cara.

Nunca fui de comprar revistas, as que eu normalmente leio são trazidas pela minha mãe, emprestada da biblioteca da empresa onde ela trabalha ou da biblioteca da faculdade. Não tenho paciência em saber, datalhadamente, a morte mais significativa do mês ou a trajetória do avião, do ônibus, dos terroristas, no maior acidente da história, até a próxima quinzena. O resto? Também não me interessa a ponto de comprá-las. Se a minha intenção é mesmo ser jornalista? É mas comecei a estabelecer algumas opiniões sobre o jornalismo impresso, inclusive o jornal, mas isso é assunto para um outro post “normal”.

Quando recebi a Piauí na minha mesa, em uma daquelas sextas-feiras à noite, em que você gostaria de estar em qualquer lugar do mundo, mesmo que fazendo nada, menos na sala de aula da faculdade, eu e a revista “principiamos” uma relação de desconfiança, preconceito e grosseria – pelo menos da minha parte. É como se colocassem um filho nos teus braços e dissessem, “toma, que o filho é seu”, sem ao menos você ter ficado grávida, sabe? Mais ou menos assim. Fiquei com a revista durante alguns minutos sem entender como deveria ser lida, por onde começaria e sobre o que, exatamente, ela se tratava. Não, não é simples assim. Normalmente é pelo começo, eu sei, mas eu mantenho uma insuportável mania de saber aonde estou pisando.






Primeiro um ritual muito particular: ler as revistas de trás para frente, não me perguntem o porquê. Deslizo as mãos nas folhas para sentir a sua textura e a essência, feito, talvez e por que não, uma cega. Percebo as fotos, nas quais não são exatamente fotos, mas um punhado de imagens misturadas, desenhos, montagens com cores de gosto bastante duvidosas... Lembro-me que a primeira tinha o Che Guevara estampado na capa com uma camiseta, obviamente vermelha, mas com a cara do Bart Simpson! Pensei, “deve ser uma revista de humor fácil”. Depois, retornando ao meu ritual, a primeira “matéria” tinha a intenção de ser religiosa, a figura e o editorial não dava outra margem: “O limbo não passa de um telogúmeno”. Hã? Continuando... “ O que a libertinagem, a franqueza, as salas de espera e, talvez, a irmãzinha do Papa têm a ver com o destino das crianças inocentes”.

“Mas que merda é essa?” Falei em voz baixa. Óbvio que eu poderia simplesmente ter acabado com a dúvida lendo a matéria. Continuei imaginando o que viria pela frente ou melhor dizendo, por trás. A seguinte matéria, aliás, a que vinha antes, dizia, de uma forma ainda mais enigmática. “aí é luta, patuléia – uma desavença fonética opõe a jovem guarda aos palindromistas tradicionais, seria ´Acena vanessa!’ aceitável?”
Desta vez foi em alto e bom tom...
Continua...

sábado, 22 de setembro de 2007

Pintando O Quarto

Pintar o quarto é uma beleza.
Tira todos os móveis. Guarda todos seus objetos em caixas e malas. Forra o chão com jornal. Pega a escada, a tinta e os pincéis. Só alegria. Cor vibrante. Uma renovada no visual. Risos e piadas. O pé direito do quarto é alto, hein? Usa o extensor para o rolinho (na verdade é um cabo de vassoura, o extensor original custava muito caro). Fazendo força para a tinta pegar direito lá em cima. Putz! Tem que colocar fita crepe para a tinta colorida não manchar a parede branca. Pega a escada e passa a fita em todos os cantos. Ufa. Continua a pintura. Menos risos e piadas. Suor. Cansaço. Que horas essa merda vai acabar? Ah, mas o resultado final vai ficar bonito. Vale o sacrifício. Hmmm. Ficou meio manchado, não? Droga. Vai precisar de uma segunda demão. Merda. Mais cansaço e suor. Que se foda. Fica assim mesmo. Não, não vai ficar bom. Hora do descanso. Água e bolachas. Observando a parede. Não é que essa cor é bonita mesmo? Vai ficar do caralho. Segundo round. Mais um pouco de esforço. Cobrindo todas as manchas da pintura. Eu deveria ter pago alguém para pintar essa merda. Desgaste físico. Calor. Manchas cobertas. Apreciando o visual. Que beleza. Realmente, foi uma ótima escolha. Depois de tudo arrumado, vai ficar mais bonito ainda. Olha pro corredor. Caixas, malas e móveis fazendo fila para entrar.
Ê putaquepariu.
Cadê o baldinho do Photoshop quando a gente precisa dele?

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Gosto muito de moda, não sou doente e nem nada, não tenho estilistas favoritos, estilo fixo, não entendo muito, não sei pregar botão, mas tem algumas idéias que eu aprecio e a alta costura é uma delas. Definitivamente acho uma arte respeitável, não que o resto não seja, no entanto quanto mais detalhes, quanto maior for o trabalho e o cuidado com tecidos e a costura, eu valorizo mais, como qualquer outra coisa. Ontem fui cobrir um dia muito especial "da semana de moda londrinense" e tomei um susto, apavorei... Cláudio Pádua, Bruno Passos e JulianaVidela, estudantes de moda, expuseram a sua peças em um desfile fantástico. Além de mim eles deixaram todo mundo de boca aberta, babando, sentindo-se em uma daquelas semanas de moda europeia. Vou colocar alguma fotos para vocês entenderem o que eu estou falando.





claúdio








Bruno















juliana